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Assis de Jesus
by on January 27, 2018
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“Método em cativeiro produz 90 mil toneladas por ano de camarão”, afirma Wilson Wasielesky ,

coordenador do Projeto Camarão do Instituto de Oceanografia da FURG. Foto: Fábio Dutra/Jornal Agora

A carcinicultura pode ser uma atividade vantajosa, já que sozinha fornece 90% de todo o camarão criado em cativeiro e consumido no Brasil. Para tanto, é necessário ter amplo controle da produção, o que vem sendo possível graças ao cultivo em Sistema de Bioflocos (do inglês Biofloc Technology System – sigla BFT).

De acordo com o professor Wilson Wasielesky Junior, coordenador do Projeto Camarão do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), o BFT tem sido uma alternativa para elevar a produção e, ao mesmo tempo, reduzir os custos com captação e renovação de água, e ainda eliminar possíveis problemas com efluentes geralmente descartados nas águas, que tanto prejudicam a pesca extrativa no País.

Com o aumento do consumo nas últimas décadas, principalmente por parte de países em desenvolvimento, como o Brasil, muitos criadores têm optado pelo Sistema de Bioflocos através de viveiros ou raceways (estufas). Dependendo do método escolhido, o custo da produção pode cair até 30%.

“A cada dez quilos de camarão disponíveis no mercado brasileiro ao consumidor final, apenas um quilo vem da pesca extrativa. O método em cativeiro é responsável pela produção de 90 mil toneladas por ano do produto, enquanto a extrativa fica com 10 mil toneladas. Daí a necessidade de melhorar o sistema de criação de camarões em espaços fechados”, justifica o oceanógrafo.

De acordo com ele, estudos mais recentes da FURG mostram que é possível reduzir de 20% a 30% o custo da carcinicultura.

“Se antes produzíamos 20 toneladas de camarões, hoje é possível chegar a 400 toneladas, graças à mudança de alimentação, com menor índice protéico, estrutura mais avançada e manejo adequado. Tudo em tanques bem menores. Ainda realizamos a fertilização com carbono e economizamos mais água”, especifica.

Segundo Wilson, pelo Bioflocos pode-se ter até um quilo de camarão usando menos que cem litros de água.

“Nos sistemas convencionais, são utilizados mais de 50 mil litros para se atingir a mesma produção.”

Conforme relatório da pesquisa da universidade, “o sistema ainda oferece a possibilidade de utilizar elevadas densidades de estocagem na produção de diferentes espécies de organismos aquáticos, principalmente porque a assimilação dos compostos nitrogenados (amônia, nitrito e nitrato) é realizada com o auxílio da biomassa microbiana formada no próprio ambiente de cultivo”.

O pesquisador esclarece que estes microorganismos também servem como fonte suplementar de alimento, o que reduz o emprego de ração, melhorando a conversão alimentar (custo versus benefício) e reduzindo os gastos com a produção.

Ele reforça que, no Sistema Bioflocos, praticamente não se exige a renovação de água e ainda são aproveitados os microorganismos como alimento natural.

“O BFT apresenta maior biossegurança, pois diminui intercâmbios de água e doenças”, explica

Estrutura de estufas para testes piloto com tanques revestidos com geomembrana (PEAD) da Estação Marinha de Aquacultura da FURG.

Foto: Dariano Krummenauer

RELATÓRIO

Outro relatório da FURG – produzido por Wilson em parceria com os pesquisadores Carlos Augusto Gaona, Fabiane da Paz Serra, Luis Henrique Poersch -, a formação do floco ou agregado microbiano surge após o acúmulo de matéria orgânica e da existência de oxigênio no BFT, seja ele realizado em viveiros ou em tanques revestidos com material impermeável, com mínima ou nenhuma renovação de água.

Ele destaca que, no início do cultivo, a água clara favorece a proliferação de organismos fotoautotróficos (aqueles que obtêm seus nutrientes com a ajuda da luz do sol). Os nutrientes presentes na água, continua Wilson, e a disponibilidade de luz para a fotossíntese facilita a aparição das microalgas nos primeiros dias do cultivo.

“Conforme a concentração da amônia vai crescendo, aumenta também a concentração das bactérias heterotróficas (que se alimentam de moléculas orgânicas oriundas de outros seres vivos), beneficiadas pela sua maior capacidade de assimilação de nitrogênio amoniacal.”

Sob efeito da amônia nas bactérias, é notado alta concentração de nitrito, que é tóxico para os animais. “Os níveis crescentes de nitrito, por sua vez, favorecem a presença de bactérias nitrificantes que oxidam o nitrito, transformando-o em nitrato, que é menos tóxica para os camarões confinados. Em um processo simultâneo e contínuo, observamos a formação dos bioflocos e o seu acúmulo até o final do ciclo de produção”, explica Wilson,

No que diz respeito à formação dos bioflocos, os pesquisadores do Laboratório de Carcinicultura da FURG já testaram diferenciadas fontes de aeração, diversas fontes de carbono, além da adição de amônia para acelerar a formação dos agregados microbianos. Também foram realizados cultivos com água marinha natural e artificial, com diferentes salinidades, e avaliada a viabilidade da reutilização de água.

De acordo com Wilson, inicialmente foram feitos testes em berçários intensivos com densidades entre 1,5 mil e 6 mil camarões por metro quadrado de tanque. Ele relata que a sobrevivência superou os 90 % em diferentes densidades, sem renovação de água.

Já na fase de engorda do camarão, foram testadas as densidades de 150, 300 e 450 camarões por metro quadrado, durante 90 dias (a partir de um grama). O relatório da FURG mostra que os melhores resultados foram obtidos na densidade de 300/m², com crescimento semanal de 0,82 gramas e sobrevivência acima de 85%. A produtividade foi de 3,9 quilos de camarões por metro quadrado (39 toneladas/ha/ciclo).

Estufa (585m2) para testes piloto com tanques revestidos com geomembrana
(PEAD) da Estação Marinha de Aquacultura da FURG. Foto: Dariano Krummenauer

MERCADO

“O consumo aumentou no mundo todo e a carcinicultura teve de se adaptar, principalmente por causa de problemas ambientais que envolvem a poluição de águas, em virtude da emissão de efluentes sem tratamento, elevação da procura por farinha e óleo de peixes usados nas rações e do surgimento de doenças, como a Síndrome de Taura, Mancha Branca, entre outras”, cita o professor.

O oceanógrafo também destaca que a criação de camarões em raceways cobertos tem despertado o interesse de pesquisadores e produtores de outros países, especialmente de regiões com clima subtropical e/ou temperado.

“As estruturas fechadas também são alvo de estudos nos Estados Unidos, na Bélgica, Coreia do Sul, Indonésia e Holanda. Nestes lugares, o sistema BFT também já está sendo usado para engorda de camarões”, conta o professor.

“Os testes com raceways têm sido animadores, porque mostram que a técnica é uma realidade que está pronta para ser aplicada por carcinicultores. O problema tem sido a burocracia, principalmente quando envolve o licenciamento ambiental. Recentemente, soube de um produtor de camarão que conseguiu sua licença após três anos de espera. Não sou contra o licenciamento, mas é preciso dar uma resposta rápida para estimular novos investimentos no setor”, ressalta Wilson.

 

FURG

A Estação Marinha de Aquacultura da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), onde também funciona o Laboratório de Carcinicultura do Instituto de Oceanografia, conta com um sistema de estufas de 580 metros quadrados com dez raceways, todos revestidos com geomembrana. A aeração dos tanques é feita através de um soprador (blower).

A estufa ainda conta com sistema de emergência e de filtração, quando necessário. Essa estufa-piloto de cultivo do camarão facilita a realização de testes em repetições que simulem ciclos completos do cultivo na prática (berçário e engorda). O Laboratório ainda possui duas estufas de pesquisa, onde são realizados crescimentos de camarões com bioflocos e três salas experimentais para realização de experimentos em micro-escala com bioflocos.

“Os resultados obtidos no laboratório, para o sistema BFT, indicam que podem usadas elevadas densidades de estocagem, desde que sejam mantidas boas condições de qualidade da água para a espécie, através do manejo adequado. As taxas de conversão alimentar são semelhantes aos cultivos tradicionais, mas as sobrevivências dos camarões são significativamente superiores e a produtividade é, no mínimo, dez vezes maior que em viveiros que não utilizam o Sistema Bioflocos”, defende Wilson.

 

SAIBA MAIS

Vantagens do sistema BFT:

* Aumento da produtividade

* Aumento da biossegurança
* Comunidade microbiana atuando com probiótico
* Diminuição da quantidade de proteína nas rações
* Diminuição ou isenção da renovação de água
* Maior estabilidade do sistema
* Maior disponibilidade de alimento natural
* Menores unidades de cultivo com maior controle
* Menor impacto ambiental
* Possibilidade de cultivo em regiões afastadas da costa
* Utilização de menores áreas de cultivo

Por equipe SNA/RJ

Posted in: Aquaculture